Kadu Braga demonstra como é a máscara de proteção facial produzida pelo projeto colaborativo

Uma parceria Porvir | EDUforics

Por Maria Victória Oliveira

Em meio à escassez de equipamentos de proteção hospitalar para tratar pacientes com coronavírus (COVID-19), educadores, estudantes e voluntários no melhor espírito do movimento maker, que tem como princípio a crença de que qualquer pessoa pode consertar, modificar, criar e produzir objetos com as mãos, lançaram uma força-tarefa para ajudar profissionais da saúde. Em diferentes espaços de fabricação, o grupo está produzindo máscaras faciais de proteção (“face shields”, em inglês) próprios para uso em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

Assim como a Itália, que contabiliza milhares de infecções do COVID-19, em São Paulo (SP) parte dos atingidos está na linha de frente de atendimentos (médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde). Nos últimos dias, foram centenas os casos deste tipo noticiados em hospitais que concentram o tratamento contra o vírus. Aliado a outros equipamentos como óculos e máscaras, esse tipo de protetor facial adiciona uma camada extra de proteção que permitirá aos profissionais continuarem com os atendimentos.

A produção do protetor facial está a todo vapor no âmbito do movimento Makers Contra a COVID-19. Trata-se de um grupo autônomo e horizontal, fundado por amigos que perceberam a necessidade de apoiar o combate à pandemia. Kadu Braga, educador fundador da Teia Inovação Consciente e um dos articuladores do movimento, explica que produzir as máscaras e distribui-las a hospitais é a forma que o grupo encontrou para reforçar a importância do SUS (Sistema Único de Saúde) e da pesquisa no Brasil, além de ajudar aqueles que estão na linha de frente.

As máscaras, a cultura maker e a educação

A máscara é formada por uma tiara e uma folha de acetato. No processo de construção, são usados equipamentos próprios do universo maker como cortadora a laser e impressoras 3D, tanto para cortar a folha quanto para imprimir a tiara. O modelo criado pelo “Makers Contra a COVID-19” chama-se Viva SUS e, para chegar no formato funcional para UTI, foram feitos ajustes e testes em contato com profissionais da saúde e com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Recentemente, a peça obteve aprovação da Dra. Ho Yeh Li, coordenadora da UTI de infectologia da instituição.

Para Kadu, a pandemia ajudou a resgatar o verdadeiro objetivo do movimento maker de atuar na educação construcionista e promover o “fazer para aprender”, além do fato de que usar conceitos e ferramentas é uma forma de mostrar aos estudantes que essa cultura existe para a prototipação de soluções para problemas reais. “Não se trata de fazer um LED acender ou um motor mexer se não há intencionalidade, seja pedagógica ou social.”

Segundo o educador, está tudo interligado: o movimento mostra a importância da pesquisa e do compartilhamento livre, horizontal e autônomo dessas descobertas. Foi esse ideal da cultura maker que possibilitou a participação de tanta gente na produção disseminada das máscaras.

“Nós criamos uma rede pela internet. Mas como está todo mundo em quarentena, não conhecemos grande parte das pessoas que estão apoiando o movimento. Em um dia desses, fomos buscar uma produção na região do ABC. Nós já tínhamos verificado que era uma das melhores produções, a mais profissional e que passava no controle de qualidade de primeira. Qual não foi a nossa surpresa de ver que era um jovem que produzia as máscaras. O nosso produtor de melhor qualidade era praticamente um adolescente, ou seja, a cultura maker possibilita que especialistas não sejam só aqueles com muitos anos de mercado, mas pessoas com acesso a pesquisa e ao desenvolvimento autônomo”, explica Kadu.

O jovem em questão é João Pedro Vilas Boas, estudante de engenharia de instrumentação, automação e robótica da UFABC (Universidade Federal do ABC), instituição localizada em Santo André (SP). Um dos motivos que explicam a excelência de seu trabalho com as máscaras é a longa familiaridade com o movimento maker. Natural da Bahia, João Pedro participava de competições de robótica desde cedo, chegando a campeonatos mundiais. Veio para São Paulo para ter mais acesso a esse universo e, navegando em fóruns e vídeos na internet, começou a montar impressoras 3D com apenas 16 anos.

Após passagem como assistente de robótica no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo (SP), hoje João Pedro integra a equipe da Tenda Digital, que trabalha com soluções tecnológicas para educação. Depois de ficar sabendo do projeto, decidiu, juntamente com colegas da empresa, colocar as impressoras 3D para funcionar. “Nós já temos ‘know-how’ para produção de peças em média e larga escala, já conhecemos o fabricante, sabemos quais são as configurações exatas para o tipo de impressão que estamos fazendo. Tudo isso ajudou muito a fazer os ‘face shields’”, afirma.

Para o universitário, a pandemia possibilita a percepção de que a produção de insumos e materiais necessários não depende apenas de grandes empresas que, atualmente, estão com as produção reduzidas ou paralisadas. “É superimportante que pessoas, sejam do movimento maker ou não, consigam ter esse pensamento de ‘eu também posso gerar mudança, não preciso esperar que uma fábrica gigantesca produza. Eu posso, dentro da minha casa e com as minhas ferramentas, produzir coisas que vão gerar alguma diferença.’ O movimento maker está aqui para reforçar que, mesmo que você seja pequeno, é possível gerar algum tipo de mudança.”

 

Publicado originalmente em Porvir.