André Gravatá é poeta, jornalista e um dos idealizadores da Virada Educação.


Não dá mais para observarmos o mundo como se cada coisa estivesse separada da outra, como se nossa vida não fosse um emaranhado de relações. Bem assim não dá mais para vermos as escolas descoladas de seus territórios – quanto mais as escolas se abrem para descobrir seu entorno, mais ar entra, mais vida circula, por meio de projetos consistentes que abrem portas, aumentam as chances de que mais arte, mais poesia e mais diversidade encontrem espaço. Nos links abaixo, 10 convites para mergulhar nessa educação que ocupa ruas, corpos e sonhos.

1. A batalha do vivo

A publicação A batalha do vivo, realizada pelo coletivo Contrafilé, secundaristas de luta e amigos, pergunta: Se a escola se repensa, o que acontece com os outros espaços? Esse livro é um registro poético e provocativo que resgata a vivência dos jovens no movimento das ocupações de escolas e revela a marca impressionante dessa experiência no corpo dos jovens. Uma frase que destaco: “Ocupo para cuidar de mim e dos outros”.

2. Poetas ambulantes

Página do coletivo Poetas ambulantes, que espalha poesia por ônibus e vagões de metrô. Por lá, é possível acompanhar os trajetos do grupo por São Paulo, com suas aparições que interrompem a rotina da cidade e inauguram cenas especiais. Em um depoimento o grupo diz assim: “Chega a ser até comum os passageiros se emocionarem, não foram poucas as vezes que vimos lágrimas escorrerem após uma poesia”.

3. Território do brincar

O Território do brincar é um convite ao reencantamento. É um projeto de escuta da infância que nasceu de uma jornada pelo Brasil, na qual o casal Renata Meirelles e David Reeks, junto com seus filhos, redescobriu o país por meio das brincadeiras infantis. No site, é possível encontrar vídeos, textos, livros, entre outros materiais preciosos. Em um dos livros disponíveis para download, chamado Território do Brincar – Diálogo com escolas, há uma passagem que me marcou muito, uma citação retirada de outro livro, cujo título é A infância vai ao cinema: “É a criança que educa o adulto a olhar as coisas pela primeira vez, sem os hábitos do olhar constituído. Wim Wenders diz de um olhar sem opiniões, sem conclusões, sem explicações. De um olhar que simplesmente olha. E isso, talvez, seja o que perdemos”.

4. Criativos da escola

O Criativos da escola é a afirmação que as crianças e jovens são capazes de imaginar e criar ações incríveis. E para fortalecer o protagonismo infantojuvenil, o Criativos dá visibilidade a iniciativas realizadas por crianças e jovens pelo Brasil inteiro – alguns dos projetos envolvem mais diretamente o território, como o Em defesa do córrego Guará, de Brasília-DF, e o Histórias e Culturas Afro-Brasileiras, de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Além do canal no YouTube, no site do Criativosé possível acompanhar uma área de notícias com a divulgação constante de histórias que narram um Brasil precioso e potente, que é urgente conhecermos e apoiarmos.

5. Elogio aos errantes

Elogio aos errantes é um livro sobre flanâncias, deambulações e derivas. Andar pelas páginas desse livro é redescobrir maneiras de circular pelo nosso território, de ocupá-lo criativamente. Elogio aos errantesaponta, por exemplo, a importância da desorientação para nos livrarmos dos inúmeros condicionamentos que determinam nossos passos. O livro é uma pesquisa extensa de Paola Berenstein, arquiteta, urbanista e professora da Universidade Federal da Bahia – UFBA.    

6. Prêmio Territórios Educativos

O acervo de histórias do Prêmio Territórios Educativos é uma maneira de conhecer práticas de educadoras e educadores que estão ousando transbordar os muros das escolas. Há projetos sobre imigração, gênero, inclusão. Tem brincadeira, resgate da memória, arte. Um dos projetos que chamou minha atenção no ano passado foi o do CIEJA Perus I, que reorganizou seu currículo para possibilitar a integração da comunidade haitiana na escola. E realizaram também uma festa para valorizar a cultura haitiana, convidando toda a comunidade local!

7. Cidades Educadoras

Você sabe como surgiu o conceito de cidade educadora? Sabe quais as políticas públicas que atuam em prol de territórios educativos? Você encontra as respostas a essas perguntas (e a muitas outras) na plataforma Cidades Educadoras, desenvolvida pela Associação Cidade Escola Aprendiz para fortalecer práticas de educação e território no Brasil.

8. Guia do espaço público

O que mais me encantou no Guia do espaço público é a parte sobre “artistas, grupos e iniciativas”, a partir da página 58. Dá para encontrar nomes e mais nomes de pessoas e ações que estão ocupando os espaços públicos brasileiros com consistência e beleza, com reverberações provocativas e insistentes. Destaco o trabalho do grupo Lagartixa na Janela, que “investiga as relações de interface entre a linguagem da dança e o espaço urbano, tendo como público-alvo o universo infanto-juvenil”.

9. Cidades para pessoas

Cidades para pessoas é um projeto que nos provoca a inventar outras relações com a cidade, a repensar o que é uma cidade. E o time de investigadoras do projeto já passou por dezenas de cidades no Brasil e no mundo, sempre com um olhar complexo, buscando compreender os territórios e suas camadas pulsantes. No site, você encontra jogos, cursos, videos, etc. É um manancial para a sensibilidade.

10. Educação de Alma Brasileira

Para que a educação brasileira se transforme, seja por meio de um olhar que valoriza os territórios, seja por meio de práticas que resgatam a força da arte, seja como for, é fundamental nos aprofundarmos no entendimento do que é o contexto brasileiro, do que é a história do Brasil, para realmente a mudança ganhar raízes ao longo dos próximos anos. O livro Educação de Alma Brasileira é um convite enfático para redescobrirmos a história da educação no Brasil e não nos esquecermos, como disse Paulo Freire, que não se realiza nenhum sonho nem utopia se não cultivamos intimidade com a nossa realidade.

Para além das sugestões acima, aproveito para compartilhar alguns links a mais, sobre os quais não detalhar, para que você caminhe sobre eles com a curiosidade te levando pela mão e se surpreenda:
Resistir até que existam territórios férteis 
Inventolhar
Livro dos encontros

*Crédito ilustração: Rayssa Oliveira