Priscila Fernandes é jornalista e doutoranda em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“Penso que a leitura não é comparável a nenhum meio de aprendizado e comunicação, porque ela tem um ritmo próprio, que é governado pela vontade do leitor; a leitura abre espaços de interrogação, de meditação e de exame crítico, enfim, de liberdade; a leitura é uma relação com nós mesmos, e não apenas com o livro: como nosso mundo interior, através do mundo que os livros nos abre”,  Ítalo Calvino, in Mundo escrito e mundo não escrito. 

Em um dos artigos de Mundo escrito, mundo não escrito, o escritor Ítalo Calvino aborda a importância da leitura para a construção de um mundo interior, explicitando a amplitude de horizontes que a atividade pode propiciar. Mas para alcançar a liberdade a partir do texto é preciso um caminho de experimentação, de exercício de leitura, que, quando mediado pela generosidade de um outro leitor mais experiente, pode potencializar não só a percepção e relação com o mundo interior, como a capacidade de dialogar com outras pessoas, com o mundo exterior. 

Essa ideia de ampliação de horizontes, de diálogo, de conexão e de desenvolvimento integral está na base da constituição do Programa Myra, iniciativa desenvolvida pela Fundação SM, com apoio técnico da Comunidade Educativa CEDAC. “O Myra nasce sob o signo da generosidade, quando a Fundação Jaume Bofill doa as bases de seu projeto Lecxit para a criação de um programa ajustado às necessidades da realidade brasileira”, explica Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM Brasil. 

No Brasil, o projeto recebeu o nome de origem Tupi, Myra, que remete aos vocábulos gente, pessoas, grupo, e concentra valores fundamentais para o Programa, como integração, coletividade, relações, desenvolvimento e horizontes. 

Na prática, a iniciativa gesta uma rede pela leitura, composta por atores diversos, que têm em comum o interesse de contribuir para melhorar cada vez mais a compreensão e o desempenho leitor de estudantes, do 4º ao 6º ano, do ensino fundamental da rede pública brasileira. Gestores, professores, famílias, voluntários e crianças integram essa comunidade, alicerçada na ideia de que a leitura é um direito de todos e via de acesso aos bens culturais construídos pela humanidade.

Presente em quatro escolas de São Paulo – Escola Municipal de Ensino Fundamental Coronel Ary Gomes, Escola Municipal de Ensino Fundamental Cacilda Becker, Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima e Escola Estadual Alfredo Paulino –, o Programa promove encontros semanais, com uma hora de duração, em que um voluntário-tutor e uma criança realizam atividades em torno da leitura. Nesse sentido, enfatiza a construção de vínculos entre leitores e leituras, e entre voluntários-tutores e crianças – o que nos remete à afirmação de Paulo Freire, em Pedagogia do oprimido, sobre uma “educação autêntica” possível apenas na equação “de A com B, mediatizados pelo mundo”, e não “de A para B  ou de A sobre B”.

Sobre “A com B” – A leitura em diálogo

“O que me motivou a participar do Programa Myra foi simplesmente a vontade de ajudar. Através dessa experiência, aprendi muito. Aprendi a escutar melhor quem está comigo. Também aprendi a compreender as necessidades do tutorando para elaborar as atividades da sessão de leitura. Partindo desse ponto de vista, deixo os meus interesses de lado e coloco foco nos interesses e necessidades do tutorando”, compartilha o ator Marco Antonio Moreira a respeito de sua experiência como voluntário do Programa.

O relato sobre o desejo inicial de ajudar uma criança a ler, muito comum nas primeiras falas dos que se candidatam a participar do Myra, ganha novos contornos ao longo do processo, quando o voluntário – a partir das formações e conteúdos disponibilizados pelo Programa e dos encontros com as crianças –  percebe que sua atuação vai além da ideia de doação de tempo para uma causa, demandando vínculo, escuta e, principalmente, o diálogo com o outro. O voluntário, a princípio considerado um agente para a transformação, também se transforma, completando um círculo virtuoso de desenvolvimento da comunidade na qual está inserido. “O projeto impacta de uma maneira muito positiva, porque o aprendizado é constante. É uma troca. É doação dos dois lados: de tempo, de escuta, de ideias e de sentimentos. Do meu lado, posso dizer que impacta a rotina; o meu olhar para as coisas do mundo a partir das conversas que tivemos nas sessões; a busca pelos livros a serem lidos; a alegria de quando o livro é bem aceito; ou a frustração de um livro que a criança não tenha gostado. Acredito que para a criança esse momento de atenção, que é único e só dela, faz com que adquira confiança em si mesma, além, é  claro, do estímulo à curiosidade, à imaginação e ao interesse pelos livros”, conta Renata Augusto Ferreira, que inicia seu segundo ano de atuação como voluntária.

Para Cristiane Tavares, coordenadora pedagógica do Myra, pela equipe do CEDAC, um dos aspectos que diferencia o Programa é o comprometimento de todos os envolvidos. “O Myra valoriza a presença qualificada como condição para o estabelecimento de vínculos afetivos, determinantes para toda e qualquer aprendizagem. O compromisso e a frequência do voluntário constroem uma relação de confiança e permanência que qualifica muito positivamente os encontros. Além disso, há todo um cuidado da equipe para apoiar o voluntário nas mais diversas demandas: da escolha dos livros a serem compartilhados com as crianças às múltiplas formas de estabelecer conversas sobre as leituras, valorizando, sobretudo, a escuta”, explica.

Resultados para além dos números

A mensuração do sucesso de um projeto social não é tarefa simples. É preciso estabelecer e monitorar indicadores palpáveis, como número de envolvidos, capilaridade e crescimento, mas também estar alerta aos aspectos menos tangíveis, porém essenciais, como o nível e a qualidade da aprendizagem, o desenvolvimento socioemocional e o impacto positivo do trabalho na comunidade. 

No Myra, a avaliação pedagógica figura como um dos índices de materialização dos objetivos. No início de cada ano letivo, todos os estudantes realizam uma avaliação que mapeia as competências leitoras individuais e do grupo. A partir dos resultados desse instrumento e das indicações da escola, alguns alunos são convidados a integrar o Programa, sendo direcionados a seus respectivos voluntários-tutores. No final do ano, a turma realiza uma segunda avaliação, que traça o desenvolvimento de cada estudante e do grupo de forma geral. As duas provas ministradas são confrontadas, revelando os níveis de aprendizagem do grupo em comparação com os dos alunos que participaram do Programa. 

Em 2018, os resultados obtidos no início do ano revelaram que os alunos selecionados para o Programa Myra acertaram 30% da avaliação pedagógica, enquanto a média da turma era de 55%. No final do ano letivo, os alunos Myra chegaram à média de acertos de 52% (crescendo 22 pontos), e a média da turma subiu para 63% (oito pontos a mais). Comparativamente, se no início do ano a diferença entre os alunos Myra e a turma era de 25%, no final do ano, essa discrepância caiu para 11%, indicando não só uma acentuação da curva de crescimento dos alunos que participaram do Myra, como uma projeção de que, em pouco tempo, essas crianças alcançarão a turma.

Para além do retrato definido pelos números, o Programa reúne histórias de desenvolvimento real, narradas por aqueles que estão cotidianamente em contato com as crianças – seus coordenadores, professores e familiares. A professora do 5º ano da Escola Estadual Alfredo Paulino, Carmem Silvia Bueno, partilha sua percepção sobre a evolução de meninos e meninas que participaram do Myra.“Observamos um fortalecimento da autoestima desses alunos, que tinham muita dificuldade de leitura e mantinham uma postura apática na sala de aula, como se não fizessem parte do grupo. Na medida que eles foram recebendo o acompanhamento dos voluntários, foram melhorando a capacidade de leitura, a participação em aula, a autoestima. Começaram a não encontrar tanta dificuldade na realização das atividades, tiveram mais interesse pelo acervo de leitura da sala.  Acho que isso contribuiu para que pudessem acreditar mais no próprio potencial e seguir para o sexto ano fortalecidos. Quando a autoestima do aluno melhora, muda o comportamento, muda a nota, tudo é consequência”.

O impacto positivo no dia a dia das crianças fez com que as quatro escolas repactuassem sua participação no Programa e ampliassem sua atuação. Desde a primeira semana de abril, os voluntários estão compartilhando a experiência de leitura com 105 crianças, 42 a mais que no ano anterior. “Em 2019, o Myra entra em seu terceiro ano de atuação com saldo positivo. As repactuações com escolas e voluntários possibilitarão a continuidade do trabalho de aperfeiçoamento das competências leitoras das crianças participantes do Programa. Ao mesmo tempo que ganham desenvoltura e amor pela leitura, meninos e meninas se tornam estudantes mais qualificados. Temos a certeza de que é possível atuar positivamente para o desenvolvimento integral, a partir de um ingrediente muito potente: a reunião de pessoas diversas em prol de um bem comum”, conclui a diretora da Fundação SM Brasil,Pilar Lacerda.

Referências

CALVINO, Ítalo. Mundo escrito e mundo não escrito – Artigos, conferências e entrevistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.