Sandra Medrano. Mestre em Didática pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP, e especialista em livros e literatura para crianças e jovens pela Universidade Autônoma de Barcelona.  Trabalhou como professora e coordenadora da Educação Infantil e da Educação de Jovens e Adultos. Atuou como formadora do Programa Parâmetros em Ação e assessora da Coordenação de Educação de Jovens e Adultos do Ministério da Educação.  Atualmente, é coordenadora pedagógica da área de língua, da Comunidade Educativa CEDAC, membro da equipe de coordenação do Instituto Emília/Revista Emília e professora da Pós-Graduação do Instituto Vera Cruz.


Meu caro Francesco, venho elogiando a época em que vivemos por conta da dádiva grandiosa, realmente divina, do novo tipo de escrita que há pouco nos foi trazido da Alemanha. Vi um único homem imprimir num único mês tanto quanto poderia ser manuscrito por diversas pessoas num ano […]. Por este motivo, fui levado a crer que em pouco tempo contaríamos com uma quantidade tão vasta de livros que obra alguma seria impossível de obter por conta de raridade ou falta de recursos […]. Percebo, contudo – oh, esperanças falsas e tão humanas –, que as coisas tomaram um rumo bem diferente do que eu imaginava. Como agora qualquer um é livre para imprimir o que bem desejar, em geral desconsideram aquilo que é melhor e escrevem, meramente para se divertir, aquilo que ficaria melhor se fosse esquecido ou, melhor ainda, apagado de todos os livros. E, mesmo quando escrevem algo digno, distorcem e corrompem aquilo até um ponto em que bem melhor seria não dispor de tais livros em vez de ter mil exemplares espalhando falsidades pelo mundo todo”.

*Carta escrita por Niccolò Perotti, humanista italiano, autor de uma das primeiras gramáticas escolar, a Francesco Guarnnerio, em 1471, menos de 20 anos depois da popularização da invenção de Gutenberg. (citado em Darnton, 2010, p. 15)

Ao ler esse trecho da carta de Perotti é impossível não estabelecer relações com preocupações e comentários dirigidos à realidade em que vivemos atualmente, mais de cinco séculos depois, com o avanço dos meios digitais e a possibilidade de produção e circulação de informação de maneira intensa.

Os avanços desafiam valores e princípios arraigados e formas de funcionamento são colocadas em xeque. A rapidez no acesso à informação, que era sentida com a popularização da prensa de tipos móveis, ganha – nos dias atuais – um sentido vertiginoso, quase impossível de ser descrito. Segundo o Bowker’s Global Books in Print,no início dos anos 2010 foram publicados, no mundo, mais de 1 milhão de novos livros a cada ano. Isso, claramente, coloca questões sobre as formas de produção, apropriação e uso de tais publicações.

Aliado a essa avalanche de produção de informações, a evolução, invenção e disseminação de tecnologias correm na mesma velocidade. A economista Lídia Goldestein nos oferece um exemplo que corrobora com essa ideia: “O telefone fixo demorou 75 anos para alcançar 50 milhões de usuários, o rádio levou 38 anos para atingir esse mesmo público, a TV 13 anos, a internet 3 anos, o Facebook 1 ano e o jogo Angry Birdsapenas 35 dias.”

É nesse contexto, de grandes mudanças e desafios, que se coloca – entre muitas outras questões – a formação dos estudantes e, mais especificamente, a formação do leitor na escola.

Mais do que nunca, o estudante precisa ter garantido o seu direito a uma formação que possibilite seu posicionamento crítico, condições para um protagonismo político e social que possa ajudar a transformar este mundo em um lugar cada vez melhor para se viver e conviver.

Para a garantia desse direito é necessário o compromisso de muitas frentes; entre elas, uma se relaciona à garantia de educação e, particularmente, ao acesso a um bem cultural: a leitura e a escrita.

Especificamente quanto à garantia da leitura na escola, precisamos avançar considerando todo o contexto de mudanças citado, relacionado à produção e circulação de informações. A formação do leitor na escola precisa levar em conta essa realidade, para que os estudantes saibam lidar com a avalanche de dados, como se posicionar frente as demandas, como buscar e selecionar informações de acordo com seus interesses e necessidades, e consigam produzir conhecimentos que respondam à construção de novos cenários e possibilidades.

Michel Serres nos faz lembrar que “as ciências cognitivas mostram que o uso da internet, a leitura ou a escrita de mensagens com o polegar, a consulta à Wikipediaou ao Facebooknão ativam os mesmos neurônios nem as mesmas zonas corticais que o uso do livro, do quadro-negro ou do caderno. [Os jovens] podem manipular várias informações ao mesmo tempo. Não conhecem, não integralizam nem sistematizam da mesma forma que nós, seus antepassados” (SERRES, 2013, p.19). Isso indica que a didática da leitura necessita considerar tais transformações. 

Se a discussão sobre a necessidade da escola se relacionar com a vida já ganhou força em outros tempos, hoje parece ainda mais abominável a distância que muitas vezes as práticas pedagógicas assumem das demandas impostas para nossa existência e participação real no mundo.

Ensinar a ler em textos que só circulam entre os muros da escola, ou utilizar os textos como pretextos para ensino de um conteúdo destituído de sentido é usurpar o direito de formação do estudante. As práticas de leitura na escola precisam se aproximar ao máximo das práticas sociais de leitura que existem fora dela. Só assim, os estudantes poderão se apropriar de comportamentos leitores típicos de leitores competentes e ter garantidos seus direitos como participantes das culturas do escrito. 

Em se tratando da formação de leitores literários, é importante considerarmos que a “literatura não serve para nada e serve para tudo”. Esse é um paradoxo das artes. Como disse Felipe Munita em evento em São Paulo (2018), “a literatura é para expandir as formas de diálogo consigo mesmo, com o outro e com o mundo. A literatura é uma das formas da arte que nos ajuda a estar no mundo”. E se o mundo é essa máquina em constante e vertiginosa evolução, ainda mais importante o direito ao acesso à leitura literária. Mas sobre isso podemos aprofundar em uma próxima conversa.

Referências bibliográficas

DARNTON, Robert. A questão dos livros – passado, presente e futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

SERRES, Michel. Polegarzinha – uma nova forma de viver em harmonia, de pensar as instituições, de ser e de saber. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

MUNITA, Felipe. As práticas de linguagem na escola: conquistas e desafios. Centro de Estudos da Escola da Vila, maio de 2018.