Para sermos os moleques pretos com asas

12 dezembro 2019
A educadora e poetisa Carolina Aleixo.

Por Carolina Aleixo, educadora e poetisa.

Busco me movimentar no mundo a partir da perspectiva apresentada por bell hooks, nesse trecho de seu livro Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade: “(…) celebro um ensino que permita as transgressões – um movimento contra as fronteiras e para além delas. É esse movimento que transforma a educação na prática da liberdade” (HOOKS, 2013, p. 24), na contínua tentativa de encontrar as brechas que nos possibilitem alargar as fronteiras predefinidas. Como educadora, fazia parte da equipe do Galpão Bela Maré, um centro cultural do Observatório de Favelas, realizado em parceria com a Produtora Automatica, localizado na favela Nova Holanda (Maré, Rio de Janeiro), compondo o educativo junto com Érika Lemos Pereira e Jean Carlos Azuos. Nessa busca pelas brechas, constato que a própria existência do Galpão Bela Maré é uma delas, porque sua criação, em 2011, e as suas recriações ao longo desses anos de existência, são uma constante forma de afirmação do papel primordial que as favelas, e seus sujeitos e sujeitas, têm como produtores e consumidores de artes.

O programa educativo tem o desafio de funcionar como uma espécie de ativador das potências do Galpão Bela Maré. No nosso cotidiano, trabalhamos com a perspectiva de que, como educadores, mais do que simplesmente falar sobre obras de artes, buscamos proporcionar uma experiência disparadora de um processo de educação que seja, acima de tudo, emancipador. Neste sentido, entendendo a escola como espaço fundamental de formação, o educativo do Galpão Bela Maré realiza ações nas escolas públicas do território, compreendendo que essa articulação é importante tanto para estreitar os vínculos com as escolas que já visitam o centro cultural com alguma regularidade quanto para acessar grupos que, por uma série de razões, não conseguem visitar o espaço. A essas ações realizadas dentro do ambiente escolar damos o nome de “Bela em Movimento”.

Entre fevereiro e março deste ano [2019], realizamos dois Belas em Movimento com as turmas de nono ano da Escola Municipal Clotilde Guimarães, que está localizada às margens da Avenida Brasil, na altura da Passarela 10, cuja maioria dos estudantes são moradores e moradoras da Maré, apesar da escola estar localizada do outro lado da via. Propomos discussões a partir da palavra “democracia”, entendendo que esse é um conceito em disputa. O Escola sem partido, movimento que está na disputa pelo uso da escola em um processo de formação que atenda às diretrizes de sua ideologia, defende que a democracia pressupõe neutralidade. A neutralidade, no entanto, pode ser vista, por si só, como uma postura política, porque, na prática, é a dominância de uma perspectiva única.

Em contraponto à ideia apresentada pelo Escola sem partido, por aqui, temos proposto que a construção de conhecimento se dê desde pontos de partida diversos entre si, pautando o “direito à diferença”. Tal conceito é desenvolvido por  Jailson de Souza e Silva para abordar a construção das possíveis relações entre sujeito e cidade, ressaltando que para que a cidade seja um lugar em que todas as pessoas tenham um patamar mínimo de dignidade, é necessário que as diferenças sejam reconhecidas e legitimadas, ao invés de serem temidas e/ou suprimidas. Portanto, é a partir das diferenças que a cidade se torna mais democrática. O mesmo pode-se dizer a respeito dos processos educativos: os conflitos de ideias são fundamentais para que tais processos sejam democráticos. Portanto, é importante que perspectivas diversas sobre um mesmo assunto sejam apresentadas.

Nesse sentido, no primeiro “Bela em Movimento” realizado na E.M. Clotilde Guimarães, falamos sobre democracia a partir do amor, entendendo amar como um ato também político e pautando os direitos das pessoas LGBTQI+. Ao perguntarmos à turma se eles já tinham escutado essa sigla, escutamos a resposta: “Sim! O Rennan da Penha fez um baile para essa galera, né?”. Essa colocação nos dá um indício de que o funk, mais que um gênero musical, é um movimento importante para a construção de subjetividade de muitas das pessoas que vivem na cidade do Rio de Janeiro. Portanto, por mais criminalizado que o funk continue sendo em nossa sociedade, é inegável que ele se constitui como um movimento importante nos processos educativos de uma parcela considerável daqueles que vivem no Rio de Janeiro, ainda que não esteja necessariamente presente nas dinâmicas escolares.

 Na segunda ação, nosso objetivo era refletir de que maneiras a democracia está presente ou ausente em nossas vidas cotidianas. Como disparador dos debates, utilizamos as músicas Identidade, do Jorge Aragão e Afronta, do Nyl MC. Destacamos os seguintes trechos: “Somos herança da memória/temos a cor da noite/filhos de todo açoite/fato real de nossa história (…) sai desse compromisso/não vai no de serviço/se o social tem dono, não vai”; “Além arte e poder de consumo/vitória/saúde/diploma/direitos/em suma, não acredito em nenhum projeto de mudança/que não tenha gente preta na liderança”. O samba de Jorge Aragão, o rap de Nyl MC e o funk de Rennan da Penha compartilham da mesma origem negra e popular. Se analisarmos as músicas correspondentes a esses gêneros musicais, podemos perceber que eles funcionam como uma outra forma de sistematização de conhecimentos, memórias e culturas, diferente daquelas introduzidas pela escola.

Se a educação brasileira, historicamente, serviu como ferramenta colonizadora e dominadora, o samba, o funk e o hip hop se constituem como outras formas de sistematizar os saberes negros e populares, de contarem as histórias que não são contadas pelos livros didáticos e de compartilhamentos de experiências de parte da população brasileira que é, historicamente, deixada de lado nos espaços de educação formal.

Para ser emancipadora, a educação (e a cidade!) precisa ser plural e, portanto,  precisa levar em consideração outras memórias, sujeitos e territórios, para além daqueles que já estão reconhecidos e visibilizados nos currículos escolares. De acordo com Jailson de Souza e Silva, as periferias propõem relações e experiências “que podem ser centrais para a democratização da cidade”. As relações de desigualdade da cidade são reproduzidas nos ambientes escolares. Portanto, a presença, nos processos educativos e na cidade, de saberes que se originam na periferia é um caminho para a construção de uma educação mais plural e democrática, possibilitando, assim, a construção de uma cidade também mais plural e democrática. Em Afronta, Nyl MC diz: “eu vim para ser o moleque preto de asa”. Celebro a construção cotidiana de uma educação que possibilite a todos nós nos tornarmos moleques de asa!


Carolina Aleixo tem 25 anos, cresceu e vive até hoje na Zona Portuária do Rio de Janeiro. É bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Está fazendo a sua segunda graduação em Letras (Português – Literaturas) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, trabalha como videomaker na comunicação da Redes de Desenvolvimento da Maré. Anteriormente, colaborava com o Galpão Bela Maré, como educadora e responsável pela curadoria do CineBela, a programação de cinema do espaço. Suas experiências anteriores estão relacionadas ao trabalho com arte e educação. Além disso, é poeta e desenvolve um trabalho com vídeos e colagens a partir de seus textos.

Referências

  • Hooks, Bell. “Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade”; tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.
  • Instituto Brasileiro de Museus. “Caderno da política nacional de educação museal”. Brasília, DF: IBRAM, 2018.
  • SILVA, Jailson de Souza e. “As práticas culturais das periferias mobilizando a cidade”. In MESSEDER, C.A.; BRANCO, C. (Org.) “40 vozes do Rio: avaliações e propostas culturais para uma cidade única”. Rio de Janeiro: E-papers, 2015. p.142-146
  • “Por uma lei contra o abuso da liberdade de ensinar”. Disponível em <programaescolasempartido.org>. Acesso em: 16 de junho de 2019.