Por Marina Lopes 

*Uma parceria EDUforics | Porvir

Se por um lado existe o consenso nas pesquisas educacionais de que o professor é um importante agente de transformação dentro da escola, por outro, boa parte dos programas de desenvolvimento profissional reproduzem um antigo erro de políticas educacionais: não considerar o perfil e o contexto de cada docente. Tendo em vista esse desafio, a CESAR School, escola de inovação do CESAR (Centro de Estudos Avançados do Recife), desenvolveu um programa de formação para apoiar a implementação de uma cultura digital entre educadores da Escola Castanheiras, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.

Com inspiração e aprendizados de outras experiências educacionais acompanhadas pelo CESAR, mas entendendo que cada instituição tem o seu próprio contexto, o percurso formativo foi desenvolvido para atender especificidades da Castanheiras, que foi criada com a proposta de ser uma escola inovadora. “Já que a Castanheiras estava perseguindo a questão da tecnologia e das novas metodologias, firmamos uma parceria com o CESAR para criar um programa de formação. A gente não queria nenhum pacote pronto, e foi aí que eles entram para nos ajudar”, diz Ricardo Francisco, membro do conselho de gestão da escola e diretor pedagógico de ensino fundamental 2 e ensino médio.

Estruturado em quatro etapas, que envolvem inspiração, planejamento, experimentação e reflexão, o programa utiliza o próprio ambiente escolar como espaço de formação para estimular a autonomia dos educadores. “Nós partimos da natureza de entender o que já existe dentro da escola que pode emergir enquanto semente de inovação. Qualquer escola pode ser uma comunidade de desenvolvimento profissional”, explica Juliana Araripe, analista educacional da CESAR School.

O projeto teve início em junho do ano passado, com uma visita de dez educadores da Escola Castanheiras ao Recife para participar de uma jornada de inovação e vivenciar o ecossistema do Porto Digital, parque tecnológico da cidade pernambucana com atuação nas áreas de tecnologia da informação e comunicação e economia criativa. Meses depois, em agosto, os professores também tiveram a oportunidade de conhecer o projeto Projeto Inova Escola, acompanhado pelo CESAR, que dá suporte à oficinas de robótica, programação de jogos e produção multimídia para crianças da Escola Municipal Manoel Domingos de Melo, cidade de Vitória de Santo Antão (PE).

Após terem contato com diferentes experiências em Pernambuco, os educadores da escola participaram de oficinas temáticas de inspiração nas áreas de cultura maker, design thinking, design social e pensamento computacional. “A definição dessas temáticas veio de uma escuta realizada na própria escola. Em alguns momentos, nós fomos na escola e conversamos com alguns participantes. A partir dessa observação, fomos entendendo quais seriam os temas de interesse para a escola”, destaca a analista da CESAR School.

As quatro células temáticas de inspiração do programa têm o objetivo de reforçar práticas já desenvolvidas pelos professores da escola. “São ferramentas metodológicas para que os educadores possam construir, desenvolver, melhorar ou ampliar as práticas que eles desejam”, diz Juliana. De acordo com ela, a intenção do programa é justamente estimular colaboração entre os profissionais da instituição. “Algumas formações baseadas em tecnologia específica criam uma relação de dependência com o educador, e não uma relação de sustentabilidade. Ele recebe treinamento para saber especificamente utilizar aquele recurso, com as possibilidades limitadas que isso oferece.”

Na opinião da professora de geografia, Ana Lúcia de Araújo Guerrero, que trabalha com turmas do sexto ao oitavo ano, o grande diferencial da formação está na forma como as oficinas conseguem se conectar com o próprio fazer de cada educador. “O tempo inteiro você dialoga com a experimentação e com a prática. A teoria aparece, ela está lá dando suporte, mas ela não é a referência principal. A referência principal é a mão na massa. Eu acho isso bem interessante porque a gente costuma fazer cursos em que a teoria aparece em primeiro lugar”, avalia.

Passada a etapa de inspiração, o programa também convida os professores a planejar cenários de aprendizagem. Olhando para o seu campo de atuação, eles começaram a construir de forma coletiva propostas para repensar práticas e identificar novas possibilidades de atuação. “Eles utilizam dinâmicas que são muito interessantes para o contexto da sala de aula, são coisas fáceis de implementar, e isso ajuda a modificar a nossa prática”, diz a professora.

O próximo passo da formação é estimular que os professores experimentem práticas identificadas durante a construção de cenários. Entre o time de profissionais da escola, serão escolhidos educadores para serem mentores e contribuírem com o planejamento coletivo dos colegas. Fazendo uma comparação com o mercado de inovação, a analista da CESAR School menciona que a seleção irá considerar docentes com um perfil de early adopters (pioneiros) na aplicação de novas metodologias educacionais. “Em geral, eles são aqueles professores que experimentam novas soluções e novas metodologias e não tem medo de errar ou receber uma crítica”, cita.

Como elemento de integração de todas as etapas, o programa de formação ainda pretende estimular que os professores reflitam sobre todas as experiências que tiveram durante esse percurso formativo.

Publicado originalmente em Porvir