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Cinthia Rodrigues. Cocriadora e coordenadora do Quero na Escola, filha de professora, mãe de alunos da rede municipal de São Paulo, conselheira escolar e jornalista especializada em Educação. Trabalhou em jornais, sites e revistas, como Nova Escola Carta Educação. Busca levar mais pessoas a participar da educação pública.

 


Que a escola não pode dar conta de tudo parece ser uma máxima com que concordam as diferentes ideologias. É tanto a aprender que as pessoas, sem refletir, tentam dividir as responsabilidades da escola e da família, mais ou menos colocando conteúdos de um lado e valores de outro. Uma divisão sem sentido. Felizmente, há escolas que ensinam a cuidar da terra ou a conversar para resolver os problemas e também famílias que visitam museus de ciências e leem com as crianças todos os dias. E, infelizmente, há crianças que não têm família ou cujos familiares não podem contribuir. Em vez de separar, é preciso juntar mais responsáveis pela educação.

Em teoria, essa necessidade parece estar compreendida. Até mesmo a Constituição Federal afirma: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Na prática, no entanto, há poucos exemplos claros e muitas barreiras entre a escola e seu entorno.

Acompanho o tema desde criança. Primeiro, como filha de professora, frequentava não apenas a sala de aula, mas também a sala dos professores e, quando me formei jornalista, educação sempre foi minha área de cobertura. Mas só percebi que a legislação não bastaria em 2013, quando, mãe recente, matriculei meus filhos em um centro de educação infantil achando que poderia ajudar bastante como membro do Conselho de Escola. Em um ano de dedicação, avancei tão pouco que aprendi muito: faltavam convites menos burocráticos e mais diretos para atrair a participação da comunidade.

Sigo frequentando os Conselhos de Escola, assim como os Conselhos Regionais de Conselhos de Escola, e acho importante. O órgão composto por número igual de familiares e membros da equipe da escola é a porta legal para a participação. No dia a dia, no entanto, há muitas demandas oficiais a responder com longos trâmites para aprovação e o ano letivo acaba antes da maioria das ideias frutificarem. Na verdade, a maioria das sementes nem chegam a ser plantadas, por isso venho testando uma forma de jogá-las em um terreno fértil: a internet.

Foi pensando sobre o que pode acrescentar a tecnologia e debruçadas sobre problemas como evasão escolar e desinteresse dos adolescentes pelos estudos que, em 2015, eu, a Luciana Alvarez, a Luísa Pécora e a Tatiana Klix lançamos o Quero na Escola. A partir da constatação de que há muito mais a colaborar do que permitem os trâmites tradicionais das escolas públicas e de que muitos estudantes e educadores sentiam-se isolados dentro dos muros da escola, chegamos à necessidade de uma plataforma que facilitasse a comunicação.

O projeto tem uma fase online, que permite que muitas ideias sejam expostas ao mesmo tempo, e o ápice no presencial. O site recebe os pedidos dos estudantes por outros aprendizados que gostariam de ter, faz um mapa das escolas com pedidos e recebe cadastros de quem pode ajudar voluntariamente.  Com os dados de quem pediu e da pessoa que pode atender, procuramos a escola pelo telefone e, com muito empenho, conseguimos que os portões sejam abertos a novas pessoas e experiências.  Assim, conseguimos atender a pedidos de jovens por palestras de feminismo, direitos humanos, atividades contra racismo, aulas de teatro, fotografia, culinária e mais 70 outros temas.

O uso da tecnologia nos ajudou a promover, em dois anos e meio, mais de 150 ações em escolas públicas que beneficiaram diretamente a 10 mil estudantes, educadores e voluntários em 10 Estados do País. Dá até pra refletir sobre o próprio conceito de sociedade.

Tradicionalmente, gestores de escolas acreditam que apenas familiares e vizinhos são potenciais colaboradores. O Quero na Escola, com a ajuda das redes sociais, mostra que muitas vezes vem de longe uma indicação certeira de quem pode contribuir exatamente com o que está sendo solicitado. Além disso, as pessoas se conectam mais por empatia do que por endereço e há voluntários que vão a outro bairro ou até cidade para atender a demandas de jovens com os quais se identificam muito.

Em 2016, meses após o lançamento do Quero na Escola, educadores começaram a relatar como eles mesmos gostariam de poder ter a oportunidade que os alunos têm no site. A chance passou a ser dada no período de julho a outubro de cada ano, no Quero na Escola – Especial Professor, parceria com a Fundação SM que resulta na presença de voluntários para os próprios professores.

Além de ferramenta para conectar as pessoas presencialmente, a tecnologia cumpre outros objetivos antes e depois da realização das atividades. Antes são três: levar ao exercício de refletir sobre o que gostaria de aprender; deixar claro em um mapa do País todo como há muitos interesses além do currículo nas escolas; e ajudar os educadores a perceberem as possibilidades de parceria que existem. Depois das atividades, a tecnologia pode voltar a ser útil no caso em que voluntários e estudantes se conectam para construir uma relação virtual.

Diferentes pesquisas das faculdades de Educação da Universidade de São Paulo – USP e da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG mostram que a principal diferença entre os estudantes de escolas públicas e particulares não é o currículo, mas a condição socioculturais das famílias. Estudantes com acesso a expressões culturais, viagens e redes de contato têm melhor inserção na universidade e mercado de trabalho tanto quando estudaram em escolas públicas quanto quando vieram de particulares. Por isso, novos contatos que possam ampliar a visão de mundo são desejados.

A diferença que realmente fará esta participação ainda leva um tempo para ser conhecida. Em 2014, sociólogos da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, publicaram no TheNew York Times um artigo que considero importante levar em conta: após 30 anos de pesquisa sobre o tema, concluíram que filhos que têm apoio dos pais nas “lições de casa”, obtêm menos sucesso de aprendizado e ingresso na universidade e mercado de trabalho do que as crianças cujas famílias não têm este hábito. Ou seja: o discurso conservador do que é participação das famílias na vida escolar precisa ser atualizado.

Não acredito que tecnologia alguma substituirá a mais complexa tarefa da escola, de ensinar a viver em sociedade. O que as novas ferramentas podem é ajudar a escola a ser mais democrática, mais aberta a experiências, mais conectada com o entorno, enfim, mais parecida com a sociedade que desejamos.  

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