Por Cinthia Rodrigues, cofundadora do Quero na Escola

Quando a tragédia da Covid-19 atravessou o caminho de todos de repente, o Quero na Escola, que sempre levou voluntários para colaborar com estudantes e educadores dentro das escolas públicas, ficou bloqueado. Foi como se estivéssemos em uma estrada e um grande desmoronamento interrompesse a passagem. Paramos. Chegamos a conversar online com quem contava com os encontros marcados, mas depois decidimos direcionar nossos esforços para o que estava bem na nossa frente: a barreira que era o isolamento social. 

Assim como nós, pararam milhões de estudantes e professores. As aulas remotas logo foram apresentadas como atalho, mas havia o trauma do caminho interrompido para lidar. Assim, depois de 4 anos do Quero na Escola Especial Professor, que levava as pessoas presencialmente para as escolas a partir do que queriam os educadores, falamos com nossas parceiras da Fundação SM para fazer uma mudança: focar no apoio emocional a professoras e professores. 

Foi como entrar para a equipe de emergência. Lançamos o Apoio Emocional em julho para que os educadores pedissem uma escuta para si próprios, para todos os profissionais de suas escolas ou para seus alunos. Em julho mesmo, 300 inscrições se acumularam. Até setembro, este número dobraria para 600. Os professores se sentiam perdidos como todos, mas com uma carga maior pelos vínculos que tinham com seus estudantes e a falta de experiência em ferramentas digitais. A professora de educação infantil de São Paulo, Gabriela Santos, resumiu a confusão: “Eu tive que me adaptar a uma educação contra tudo que acredito”.

Um dos nossos objetivos era chamar atenção para os efeitos colaterais da Covid na educação. Um vídeo com alguns depoimentos evidenciou a situação específica de quem sabia que seus alunos estavam em situação vulnerável e que aulas remotas não produzem o mesmo efeito. Psicólogos e psicoterapeutas se comoveram. Recebemos a inscrição de quase 200 voluntários dispostos a atendê-los virtualmente. 

Mais de 2 mil professores participaram, 262 em escutas individuais semanais e o restante em grupos no horário de formação coletivo. Foram atendidos professores de 242 escolas, de 76 cidades diferentes de 15 estados. As conversas entre os educadores e seus voluntários são, óbvio, privadas, mas muitos nos contaram a diferença que sentiram.

“Quando veio a pandemia, eu paralisei. Estou há 5 anos da aposentadoria e não sei nada de tecnologia, nem tentei. Tinha medo demais de falar. Quando eu falei com o psicólogo, percebi que eu precisava tentar e agora tenho encontros regulares com meus alunos”, conta a professora Marcia Seraphim, de Araçatuba, interior de São Paulo. 

O projeto também ajudou a mostrar a necessidade de apoio dos educadores constantemente. Muitos problemas já estavam colocados antes e ficaram apenas mais graves com a pandemia como a falta de interesse dos estudantes, a sensação de invisibilidade do professor, a falta de investimento em novas tecnologias nas escolas e, inclusive o adoecimento dos profissionais. Além disso, muitos sentem falta de ajuda para poder apoiar os alunos em suas angústias. 

O projeto durou quatro meses e ainda acabou antes do fim da pandemia. A barreira do isolamento social segue bloqueando a entrada nas escolas na maior parte do Brasil e do mundo, mas há sinais de que no ano que vem a circulação voltará. Da nossa parte, retomamos algumas lições de sempre e aprendemos outras novas. As de sempre são que a sociedade colabora quando damos um caminho claro e de que educação não se faz de forma isolada. As novas, são que além das barreiras visíveis, é preciso cuidar dos traumas invisíveis e focar em urgências quando o cenário se transforma a nossa frente.