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Por Álvaro Marchesi

Os dois objetivos principais da inclusão educacional são permitir que todos os alunos melhorem seu aprendizado de acordo com suas possibilidades e possam conviver com os demais, participando de atividades conjuntas. Há ocasiões em que a concretização desses objetivos concentra-se quase exclusivamente em tarefas dentro da sala de aula. Nesses casos, o objetivo principal é o aprendizado, ainda que o uso de metodologias ativas, cooperativas ou baseadas em projetos também favoreça a participação e a convivência dos alunos com mais dificuldades.

Neste texto, apresentamos algumas atividades que podem ter um papel importante na educação de todos os alunos. Agora, a ênfase está na participação com os colegas em uma mesma atividade, para facilitar as relações sociais, o reconhecimento e a convivência, além de contribuir para o progresso da aprendizagem de todos os participantes.

1.A música e o canto
A música faz parte da história da humanidade. Ao longo do tempo e em todas as culturas, a música e o canto têm sido uma das expressões mais valiosas. Pesquisas recentes comprovam seu papel no desenvolvimento das pessoas e da identidade e coesão dos grupos humanos.

Desde a antiguidade clássica, a música é reconhecida como disciplina básica, intimamente relacionada ao conhecimento da matemática. A disposição das notas, os intervalos, os tempos, as escalas e, em geral, a estrutura da música estão ancorados na ordem matemática. Não é de estranhar que tenha sido considerada uma ciência, por sua lógica; uma linguagem, por sua capacidade de comunicação; e uma arte, por sua criatividade.

A expressão musical enriquece as pessoas, pois favorece o desenvolvimento da linguagem e da comunicação, ajuda a organizar o conhecimento e melhora a autoestima, a expressão emocional, o relaxamento e as relações sociais. Alguns estudos mostraram que a participação em atividades musicais tem efeitos positivos especiais na coesão e na inclusão social, pois ajuda a superar estereótipos e facilita o reconhecimento dos que são diferentes.

O ensino musical e a formação de corais em um centro educacional, seja dentro do tempo estabelecido pelo currículo — a propósito, demasiadamente curto — seja em atividades extracurriculares, pode converter-se em uma potente estratégia para favorecer a aprendizagem de todos os alunos e contribuir para a valorização e a inclusão social daqueles com mais dificuldades.

2.Atividades esportivas
O esporte favorece o bem-estar dos alunos, o desenvolvimento do corpo, o valor do esforço, o relaxamento e a predisposição para aprendizados posteriores. Quando realizado em equipe, é preciso acrescentar a esses valores o sentimento de pertencer a um grupo, as relações sociais, o respeito aos oponentes e o aprendizado de administrar vitórias e derrotas.

Essas atividades também são de grande importância para os alunos com dificuldades ou deficiências, pois os ajudam a se expressar com o corpo, a regular seus comportamentos, a relaxar e a se divertir com os colegas de classe. As caminhadas, corridas, excursões e qualquer tipo de desafio ao ar livre são especialmente motivadores e benéficos para esses alunos.

3.O teatro e as artes cênicas
A participação em uma representação teatral tem vantagens indiscutíveis para os alunos: eles fazem parte de um grupo de colegas que ensaiam durante um certo tempo, o que facilita suas relações sociais; eles têm que assumir um novo papel e entender que os outros também precisam representar um papel, o que favorece a compreensão da identidade, da mente e das emoções próprias e alheias; é preciso memorizar um texto; é preciso aprender a esperar o momento certo para falar, o que ajudará mais tarde nos diálogos de conversação; e, por fim, os participantes precisam controlar suas emoções, enfrentar as dificuldades da representação, manter um esforço contínuo e ser capazes de se apresentar em um palco diante de um público conhecido. A satisfação pessoal ao final da “estreia da peça” é inquestionável, o que reforça a autoestima do aluno e as vantagens de participar de um projeto coletivo.

Não há dúvida de que a participação dos alunos com dificuldades de aprendizagem ou com necessidades educacionais especiais nessas atividades, de acordo com suas possibilidades, tem um grande valor educacional e social. Além dos benefícios que acabamos de apontar, a participação em atividades cênicas contribui para a integração social, o reconhecimento do papel do aluno no grupo de colegas e o sentimento de participação em uma atividade conjunta.

4.Participação em encontros e festas
Existem muitos momentos para sentir-se integrado a um grupo e experimentar a satisfação de relacionar-se com os demais, de ter amigos. Um deles tem a ver com os encontros ou reuniões informais para conversar ou realizar determinadas atividades. Outro exemplo são as festas ou comemorações de certos eventos pessoais, como aniversários. Os que se encontram e os que são convidados sentem-se reconhecidos e integrados a um grupo social. É importante que a situação dos alunos com necessidades educacionais especiais seja avaliada nos centros educacionais, possivelmente pelos professores. Eles fazem parte de algum desses grupos? São convidados para encontros e comemorações de aniversários de seus colegas de classe?

As formas de intervenção não são simples, principalmente na adolescência, devido à espontaneidade, sintonia e liberdade subjacentes a essas escolhas. É preciso ter em conta também as dificuldades específicas dos alunos. No entanto, seria importante que os alunos e as famílias refletissem sobre essa situação e fossem encorajados a não se esquecerem daqueles que têm mais dificuldades. A participação nas atividades que acabamos de comentar, como música, teatro e esportes, facilitaria a inclusão nesses encontros festivos.

5.Participação em redes de comunicação
A participação em redes e grupos de comunicação digital é comum na idade escolar. Esses sistemas de comunicação rápida e contínua conectam facilmente alguns alunos entre si e fazem com que se sintam reconhecidos e integrados. Geralmente, considera-se que a falta de participação nessas redes é um sinal de isolamento social.

Existe o risco de que os alunos com necessidades educacionais especiais não sejam incluídos por seus colegas nesses sistemas. É preciso reconhecer que, às vezes, eles próprios têm muita dificuldade para fazê-lo, mas sua inclusão inicial é um sinal de reconhecimento e apreço. Portanto, o professor deve incentivar discretamente os colegas a não se esquecerem daqueles com mais dificuldades que estão ao seu redor e cujos nomes e experiências eles conhecem.

6.Atividades de descoberta fora da escola e na natureza
Esta última proposta inclui, em certa medida, um resumo das anteriores e oferece um novo caminho para enriquecer o aprendizado de todos os alunos. Pesquisas recentes destacam a importância do que é chamado de “cognição incorporada”, ou seja, a importância do corpo na aprendizagem. Já destacamos isso antes quando falamos de esportes e teatro, mas agora o fazemos em uma nova dimensão: a aplicação, fora da sala de aula, do que foi aprendido, ou, em termos mais precisos, o aprendizado de conhecimentos em ambientes naturais.

Essa perspectiva pode envolver diversas modalidades e concretizações: projetos desenvolvidos fora da sala de aula, visitas a museus ou certas instituições ou empresas, ou experiências desenvolvidas em um ambiente natural. Com relação a esse último formato, convém destacar que pesquisas recentes mostram que os espaços naturais, como lugares com água, parques, hortas e vegetação em geral, favorecem a aprendizagem, o relaxamento e o bem-estar pessoal.

Esses tipos de iniciativas são especialmente benéficas para os alunos com dificuldades ou deficiências de aprendizado, não apenas porque lhes permitem aproveitá-las como qualquer outro aluno, mas também porque favorecem a interação social e a cooperação entre colegas de classe.

Comentário final
É preciso ressaltar que a inclusão de alunos com transtornos do desenvolvimento ou problemas comportamentais nessas atividades é uma questão delicada, uma vez que estas podem ter seu funcionamento distorcido devido à participação deles. Portanto, é de grande importância que a inclusão de alunos com deficiência em quaisquer dessas atividades leve em consideração a competência inicial deles e que sejam escolhidas aquelas em que eles possam ter o melhor desenvolvimento. Mesmo assim, é preciso cuidar da inclusão deles no grupo e preparar os colegas para que facilitem sua incorporação progressiva.

O desenvolvimento desses tipos de atividades pressupõe um centro educacional capaz de organizá-las, com os recursos adequados disponíveis e disposto a estabelecer as relações necessárias com outros centros e instituições que facilitem sua prática. Algumas atividades necessitam em grande parte da colaboração das famílias.

No entanto, além da existência dessa oferta educacional complementar, tarefa que exige esforço, dedicação e apoio, deve-se enfatizar que é a liderança e a cultura inclusiva da escola, ou seja, as atitudes, os valores e o compromisso da escola, da equipe diretiva e dos professores, que vão desenvolver essas e muitas outras iniciativas em favor da aprendizagem e da inclusão social de todos os alunos.