Por Belén de la Torre

1. O que são práticas baseadas em evidências?

Segundo a Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association),  as práticas psicológicas baseadas em evidências são aquelas intervenções que integram resultados eficazes, derivados de pesquisas e pareceres clínicos realizados por profissionais com experiência nas características de portadores de Transtorno do Espectro Autista (TEA), na sua cultura e nas suas preferências individuais.

2. Mudanças na concepção do TEA

Para entender as diferentes mudanças na intervenção de alunos com TEA, é preciso levar em conta que trata-se de um transtorno relativamente recente. Lembremos que Leo Kanner falou pela primeira vez sobre “os transtornos autistas do contato afetivo” em 1943.

Além disso, em seu estudo, podemos distinguir três épocas em que a compreensão do transtorno – e, portanto, sua intervenção – baseou-se em concepções distintas. Por outro lado, as mudanças nos manuais de diagnóstico geraram grandes controvérsias e algumas confusões em diferentes setores. E, por fim, entre outros elementos, a própria heterogeneidade, tanto da apresentação do transtorno quanto da sua evolução, fez com que o tipo de intervenção com esses alunos fosse muito variável ao longo do tempo.

3. Quais são os principais dilemas na resposta educacional a alunos com TEA?

Atualmente, alguns dos principais dilemas na atenção a alunos com TEA giram em torno de: que características as escolas precisam ter para garantir uma educação ideal; como equilibrar a aprendizagem do currículo geral e o currículo específico necessário para esses alunos; quais estratégias metodológicas são as mais eficazes para ensiná-los; e como avaliar sua evolução e seu progresso educacional.

As práticas baseadas em evidências estão diretamente ligadas ao dilema relacionado a como ensinar, ou seja, quais estratégias metodológicas são mais eficientes para alunos com TEA, no contexto educacional em que se desenvolve sua educação.

4. Por que as práticas baseadas em evidências são, atualmente, relevantes para a atenção a alunos com TEA?

A educação de alunos com TEA sofreu grandes mudanças progressivamente nos últimos anos, desde que começou-se a apostar em uma educação dentro de ambientes educacionais comuns, em vez de centros específicos. Na Espanha, por exemplo, praticamente todas as Comunidades Autônomas já implementaram propostas educacionais específicas para que alunos com TEA possam ter sua formação em centros comuns, combinando uma atenção intensiva e especializada com aprendizagens em aulas de referência com os colegas.

Essa situação, entre outras repercussões, gerou duas necessidades prioritárias por parte dos professores. Por um lado, a urgência de incorporar estratégias de intervenção educacional que possam se ajustar aos contextos comuns, uma vez que a aplicação dos modelos tradicionalmente chamados de globais ou abrangentes para o tratamento de alunos com TEA é extremamente complexa.

A segunda demanda está relacionada à necessidade de materializar os princípios gerais de intervenção, incluídos na maioria dos manuais teóricos, em práticas concretas respaldadas por pesquisas e com alto grau de eficácia. Isto é, práticas de intervenção baseadas em evidências.

5. Onde posso encontrar informações sobre essas práticas?

Diferentes órgãos, organizações e instituições realizaram trabalhos interessantes de análise dessas propostas com o objetivo de estabelecer e identificar aquelas práticas que, contando com evidências científicas, são as mais eficazes. Entre os guias espanhóis, vale a pena destacar o Guía de buena práctica para el tratamiento de los TEA”, do Grupo de Estudo do TEA do Instituto de Salud CarlosIII, e a publicação“Evaluación de la eficacia de las intervenciones psicoeducativas en los TEA”, do Instituto de Investigación de Enfermedades Raras, do Instituto de Salud Carlos IIIe do Ministério da Ciência e Inovação.

No âmbito internacional, um dos guias mais relevantes é o desenvolvido pelo Centro Nacional de Desarrollo Profesional para el Trastorno del Espectro Autista (NPDC), descrito com mais detalhes a seguir.

6. Algumas informações sobre o Centro Nacional de Desarrollo Profesional para el Trastorno del Espectro Autista (NPDC)

O trabalho do Centro Nacional de Desarrollo Profesional para el Trastorno del Espectro Autista(NPDC) tem foco no desenvolvimento de recursos profissionais gratuitos para professores, terapeutas e provedores de assistência técnica que trabalham com pessoas portadoras de TEA. 

Originalmente, ele foi financiado pelo Escritório de Programas de Educação Especial do Departamento de Educação dos Estados Unidos.

O trabalho do NPDC em torno das práticas baseadas em evidências na intervenção de alunos com TEA é o resultado da colaboração entre três universidades: a Universidade da Carolina do Norte, a Universidade de Wisconsin, em Madison, e o Instituto MIND da Universidade da Califórnia, em Davis. 

7. O que posso encontrar no guia fornecido pelo NPDC?

Nesse guia encontram-se comentadas 27 práticas baseadas em evidências, muito úteis para a intervenção com alunos portadores de TEA no âmbito educacional, cobrindo desde o nascimento até os 22 anos de idade. 

As 27 práticas estão agrupadas nas principais áreas suscetíveis a intervenções em alunos portadores de TEA: social, comunicativa, comportamental, atenção conjunta, jogos, cognitiva, preparação para a vida escolar, acadêmica, motora, adaptativa, profissional e saúde mental.

Por último, cabe ressaltar que, para cada uma das práticas, são fornecidos relatórios práticos sobre como aplicá-las, referências bibliográficas para determinar sua eficácia, métodos usados para sua avaliação e recursos on-line para a implementação e formação de professores.